30 de Outubro – Dia do Ginecologista/Obstetra

No dia 30 de outubro de cada ano, comemora-se o dia do Ginecologista-Obstetra. Sou
muito feliz na minha especialidade médica. Cuidar de mulheres para mim, significa cuidar
também de famílias , proteger a sociedade, pois as mulheres são fundamentais nas
diversas culturas ao longo das gerações.

Mas infelizmente não tenho boas novas em relação à especialidade . Em 2012 foi
instituída a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB ) no Brasil pelo Ministério da Saúde e
a partir de então, juntamente com as novas diretrizes curriculares dos cursos de Medicina,
fortaleceu-se a tendência de ficar grande parte das atividades dos ginecologistas/obstetras
a médicos generalistas e outros profissionais da saúde. O entendimento é que esse é o
caminho mais econômico , proporcionando um aporte de saúde básica equitativamente a
toda população brasileira; inclusive alguns convênios começam a seguir essa mesma linha
de pensamento em capitais brasileiras.

Me parece PARADOXAL : enquanto a medicina evoluiu para diagnósticos e tratamentos
de ponta, como terapias genéticas, transplantes, há um retorno para o “mais básico”. Na
visão do SUS se “ medicaliza “ excessivamente situações femininas como o parto, como a
tensão pré-menstrual ( TPM ) e a menopausa. Consideram que a TPM, os fogachos e outros
sintomas e distúrbios na menopausa são “naturais” e não devem ser tratados.

Ora, me parece curiosa essa postura do retorno ao “ natural “ numa sociedade de altas
exigências como a nossa: as pacientes têm “smartphones”, usam óculos com alta
tecnologia nas lentes, usam aparelhos ortodônticos, pintam o cabelo, aprovam uso de
cirurgias plásticas , mas o parto deve voltar a ser como da avó! O período perimenstrual e a
menopausa, se sintomáticos, precisam ser vividos e “ sofridos “ pois isso é o “ natural “!
Há especialistas na Bioética, ciência que estuda a ética na ciência, que analisando esse
paradoxo na assistência na saúde, não particular do Brasil , comentam que o ético seria
pedir um consentimento informado aos pacientes : “ você consente em ter atendimento
básico em detrimento de atendimento especializado ? “ Mas mesmo nos países onde já
existe a medicina generalista, como o Canadá , Inglaterra, Itália, essa pergunta não é
efetuada. Não há opção. Mas naqueles países há uma rede de especialistas de suporte à
assistência básica, o que no Brasil é altamente deficitária .

Não tenho respostas , só levanto a questão que é complexa, pouco divulgada à população
e com a qual não me conformo. Voltando aos exemplos do parto normal, afirmo que não
sou contra o mesmo, mas o parto normal precisa ser controlado em vários parâmetros de
modo contínuo para garantir a saúde do concepto e da mãe, como se faz na Alemanha, por
exemplo. Caso contrário, me parece ser um retrocesso perigoso. E quanto a desvalorizar
tratamentos para a “ tensão pré-menstrual e menopausa “ , pois são sintomas “ naturais “
me parece uma visão muito antiga, “ machista “ inclusive.

Nós mulheres merecemos, certamente, ter atendimento médico que considere nossa
individualidade, que entenda nossas dificuldades e medos, nossos desconfortos. Nós somos delicadas, complexas, a maioria de nós tem dupla jornada , em casa e no trabalho; nós não somos de modo algum básicas !!!

Dra Carmem Helena Snel
CRM 13284 RS

Especialista em Ginecologia e Obstetrícia pela Federação Brasileira de Ginecologia e
Obstetrícia
Especialização em Geriatria na ULBRA

Especialista pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura Médica

Fonte: Jornal NH – Caderno Saúde – Segunda-feira, 31 de outubro de 2016.