A arte de brincar
A mudança de hábitos e do estilo de vida da maioria das pessoas nos últimos anos – incluindo o desaparecimento de espaços para brincar ao ar livre e o tempo excessivo em frente à televisão – fez com que as crianças de hoje acabem por brincar pouco ou em lugares fechados, delimitando ou até mesmo tolindo sua capacidade de criar, inventar e consequentemente de aprender a resolver problemas.
Preocupados em preparar os filhos para as melhores faculdades, ter um futuro garantido e brilhante, os pais sacrificam o tempo de brincadeira e optam por lhe oferecer atividades mais estruturadas. Desde muito cedo os pequenos já têm um agenda cheia, com atividades extras e horários rígidos. É claro que fazemos isto acreditando estar atuando em prol dos interesses dos filhos, engajando os mesmos em atividades valiosas de aprendizado, mas devemos encontrar um equilíbrio. As crianças precisam de um período onde se sintam livres, para se conhecer e descobrir seus limites.
A falta de oportunidade de participar de atividades lúdicas desestruturadas – sem regras definidas – pode fazer com que as crianças se transformem em adultos desajustados e infelizes. Ao brincar, expressamos angústias e medos, buscando inconscientemente formas de assumir o controle dos próprios sentimentos. A brincadeira encoraja a busca de soluções para as mais variadas questões, o que costuma ser vantajoso quando lidamos com situações e ambientes inesperados. Aprendemos a encarar de forma mais descontraída e com menor ansiedade os riscos do cotidiano.
A falta de brincadeiras leva ao empobrecimento das habilidades sociais.
Os profissionais da área se preocupam que tal limitação possa resultar em uma geração de adultos excessivamente ansiosos, infelizes e socialmente mal ajustados.
Mas falar em brincar não é apenas falar da infância ou de crianças. Mesmo depois que crescemos, nunca é tarde para começar a reservar um espaço na agenda para divertir-se, afinal, gente grande que não se diverte está mais vulnerável aos efeitos do estresse e ao risco de adoecimento.
Para muita gente séria, porém, incluir a diversão na própria rotina passa a ser um desafio.
Estamos cada vez mais preocupados em ter sucesso profissional, ganhar mais, supervalorizando as tarefas a serem cumpridas e acreditando que se distrair é sinônimo de perder tempo. Não nos permitidos relaxar, somos cada vez mais rígidos, exigentes e na maioria das vezes insatisfeitos.
Excluir a brincadeira, a descontração do dia a dia contribui para que as pessoas se tornem cada vez mais infelizes e exaustas sem que entendam o por que se sentem assim.
Sempre haverá trabalho a ser feito, mas as tarefas a serem executadas se tornarão mais leves e criativas se estivermos relaxados e satisfeitos.
Dra. Caroline Peter Scherer
CRM 25436