A humanização da medicina
Nas últimas décadas houve um desenvolvimento importante da ciência e da tecnologia, consequentemente do saber médico. Também é notório que a ciência tenta buscar verdades absolutas e universais, sem levar em conta a subjetividade do sujeito.
A medicina não é uma ciência exata, mas estamos tranformando-a em algo concreto.
Lacan em 1966, numa mesa redonda sobre medicina e psicanálise, referiu-se a função do médico.
Dizia Lacan, que a ciência e a tecnologia são importantes ao saber médico, mas primordial é ouvir a demanda do sujeito, demanda esta que não é desejo, desejo este que é inconsciente. Para Lacan a demanda vem velada, isto é, o sujeito vem numa máscara. Ouvir a demanda significa que o sujeito é singular, e que muitas vezes não está demandando a cura, e sim, que o médico o reconheça como enfermo. Em outros casos, vem de uma maneira mais manifesta mais desvelada, demandando que trate suas enfermidades convenientes ao sujeito, que permita seguir sendo um enfermo bem instalado em sua enfermidade.
Galeno escreveu em seu tratado, que o médico em sua melhor forma é também um filósofo. Filósofo este que entende o que é ser humano. Suas dificuldades, seus sofrimentos e a cultura em que está inserido. No livro Quincas Borba de Machado de Assis, encontramos um diálogo entre Rubião e Freitas, onde Rubião refere-se a Freitas como uma pessoa alegre, boa companhia, e Freitas responde: “engana-se senhor, trago esta máscara risonha, mas sou triste”.
Susan Sontag descreveu a doença como metáfora. Refere-se à época em que a tuberculose era considerada uma doença romântica, uma doença dos boêmios e poetas. O câncer era considerado contagioso, um castigo.
Depois que sua tuberculose foi diagnosticada, em setembro de 1917, Kafka escreveu em seu diário… “a infecção nos pulmões é apenas um símbolo”, símbolo de uma emocional “ferida cuja inflamação se chama F(elice)…”
A Max Brod ele escreveu: “a doença está falando por mim porque eu lhe pedi que fizesse”, e a Felice: “ no íntimo, não creio que esta doença seja uma tuberculose, ou pelo menos não principalmente uma tuberculose, mas antes um sinal da minha bancarrota geral”. Em outro artigo Lacan diz que o significante fala pelo corpo. Desta forma, mais adiante, Lacan denuncia que não existe relação médico-paciente e sim relação médico-doença, exatamente porque a ciência exclui a subjetividade do médico e do doente.
Para ouvir a demanda do sujeito, o médico e o doente necessitam da sua subjetividade, que faz com que entre médicos e pacientes ocorram sentimentos, como por exemplo, amizade, confiança, etc. E assim fundar-se a relação médico-paciente.
Dr. Amauri Gilson Zimmermann
CREMERS – 11397
Coloproctologista