A melhor medicina é a preventiva
A partir de uma certa idade, a maioria das pessoas começa a se preocupar com a saúde. Muitas vezes é por ver um parente ou um familiar com alguma doença, outras vezes por sentirmos nós mesmos alguma dor ou desconforto.
É também do conhecimento de todos que um problema, detectado cedo, pode ser melhor tratado, com menos complicações, maior chance de controle ou cura e, muitas vezes, à um custo menor.
A medicina é cara, e em nosso país, a falta de entendimento sobre as medidas preventivas e treinamento em rotinas baseadas em evidências fazem com que o gasto com saúde seja muito maior do que o necessário. Para abordar esse assunto, gostaria de usar o exemplo da glicose.
O exame da glicose é feito para descobrirmos se temos ou não diabete melito, ou “diabetes”, como passarei a denominar aqui. Existem, muito grosseiramente, 2 tipos principais de diabetes: o tipo 1, que ocorre normalmente na infância e que aparece muitas vezes de forma mais ou menos abrupta, e o tipo 2, que em geral ocorre em indivíduos adultos, frequentemente com mais de 40 anos, obesos, sedentários e com alimentação rica em açúcar e gordura. Também, nesses casos, é comum haver a presença de história familiar forte de diabetes.
Essa doença, embora muitas vezes pouco sintomática, determina importantes problemas a longo prazo: possível perda da função renal, aumento do risco de infarto e acidente vascular cerebral, aumento do risco de doenças dos vasos dos membros (pernas, principalmente), piora da cicatrização e não raramente a perda de parte ou de todo o membro, por conta de infecções, entre outras complicações.
A confusão começa em como detectamos a diabetes. Não raro, as pessoas procuram fazer o diagnóstico através da glicemia capilar, ou “exame do dedo”. Embora ele seja bom para quem já está tratando, ele é inadequado para o diagnóstico. O ideal é o exame de sangue em jejum (glicemia em jejum), feito em laboratório.
E quem deveria fazer o exame? Qualquer um? Ainda não temos resposta definitiva, mas as principais entidades que revisam os dados colocam que, atualmente, apenas os indivíduos com pressão acima de 135/80 ou fatores de risco (obesidade, idade maior do que 45 anos ou familiar com diabetes tipo 2) deveriam fazer o exame, a cada 3 anos. Quem não tem pressão elevada, se não tiver sintomas sugestivos de diabetes (aumento da sede, aumento da fome, aumento do volume de urina e emagrecimento ou engorda), teoricamente poderia não fazer nunca o teste, pois a chance de ter a doença é muito baixa.
Imagine o impacto de realizar corretamente essa pesquisa na população – qual o custo que isso traz ao Brasil por ano? Qual o impacto que esse exame tem no preço de seu plano de saúde? O exame em si é barato, mas multiplique ele milhares ou milhões de vezes, e podemos ter uma noção. Agora, pense nos exames desnecessários e que são caros – quantas vezes isso acontece?
Como já disse, a boa medicina começa e termina com uma bela conversa.
Pedro Guilherme Schneider
Medicina Interna / Reumatologia
CREMERS 28572