A pílula do câncer
A chamada “pílula do câncer” tem causado polêmica. De um lado, os pacientes esperançosos com a possibilidade da cura do câncer. E de outro lado, a falta de dados clínicos que comprovem a sua eficácia.
A fosfoetanolamina é um composto orgânico, presente no organismo de diversos mamíferos, que além da função estrutural de formar a membrana celular, acredita-se que tenha função antitumoral, ou seja, ação antiproliferativa, e estimula a “morte celular do tumor”.
No Brasil, uma versão artificial da fosfoetanolamina começou a ser sintetizada pelo químico Gilberto Chierice, então professor do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) no final da década de 1980. Ela foi distribuída gratuitamente por cerca de 20 anos a pacientes com câncer. Pessoas que se submeteram ao tratamento alegam terem sido curadas. Mas uma portaria da USP, universidade a qual o IQSC é ligado, no entanto, proibiu em 2014 a distribuição do medicamento, justamente pela falta de testes, pesquisas, registro e autorização da Anvisa. É importante ressaltar que a fosfoetanolamina não possui registro na Anvisa e, por isso, ainda não pode ser comercializada no Brasil.
Os primeiros testes financiados pelos Ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação e da Saúde para avaliar a segurança e eficácia da “fosfo” mostraram que o conteúdo das cápsulas não é puro e não tem eficácia comprovada contra células cancerígenas. O objetivo desses testes iniciais foi verificar a composição do produto e testar a capacidade da substância de inibir tumores em testes in vitro, ou seja, feitos com células dentro do laboratório. Mas, o pesquisador Gilberto Chierice disse que a fórmula e o procedimento utilizados nesses testes estavam errados. Claro que esses resultados não são conclusivos, os testes estão em andamento e certamente levarão bom tempo para que tenhamos resultados definitivos.
É preciso entender que as pesquisas médicas para novas terapias seguem uma sequência de passos. Os estudos com seres humanos são realizados após diversos estudos in vitro e em animais, denominados estudos pré-clínicos. Nos estudos com seres humanos existem quatro fases ainda, primeiramente os novos medicamentos são testados em voluntários saudáveis ou pacientes terminais, com o objetivo de avaliar as reações adversas. Posteriormente, é avaliada a resposta ao tratamento, no grupo de pacientes alvo. E por fim, o medicamento é avaliado quando ele já está no mercado.  Esses estudos requerem tempo e altos investimentos, em qualquer parte do mundo. Não podemos prescrever uma medicação sem comprovação científica.
O processo de desenvolvimento da fosfoetanolamina deve continuar a seguir os procedimentos científicos já em andamento e aguardar a liberação pela Anvisa.
Tanto nós, médicos que atendem pacientes oncológicos, bem como os próprios pacientes, temos esperança na cura do câncer, e não podemos perdê-la! Mas não podemos nos apoiar em falsas promessas! Não basta o projeto PLC 3/2016 aprovado pelo Senado que garante aos pacientes de câncer o direito de usar a substância, mesmo antes de ela ser registrada e regulamentada pela Anvisa. O que queremos justamente é que se comprove, com estudos clínicos, a verdadeira eficácia e segurança dessa droga e que a esperança de cura se torne real.
Dra. Gabriela Santos
Médica Mastologista – CREMERS 24627
Fonte: Jornal NH – Caderno de Saúde – Segunda-feira, 11 de abril de 2016.