A vida e a escola

O que nos somos? Somos herança genética, transgeracional, que sofre a influência epigenética e do ambiente (cuidadores e experiências de vida se entrelaçam produzindo o desenvolvimento próprio de cada indivíduo). Os primeiros anos de vida (especialmente de zero a três anos) são essenciais como base psico-biológica do desenvolvimento. Os estados carências (nutricionais, afetivos) neste período podem ter repercussões tardias de variadas extensões, dependendo da resiliência de cada criança.

Os transtornos mentais são frequentes na infância e adolescência (pré-escolares 8%, pré-adolescentes 12%, adolescentes 15%). Ao analisarmos a epidemiologia dos transtornos mentais na escola verificamos as seguintes prevalências: distúrbios na área de conduta (53,84%): agressividade, indisciplina e violência; problemas com a família (47,25%): transferência de responsabilidade dos pais para escola, não aceitação dos problemas, abuso sexual, negligência, desestruturação familiar; dificuldades emocionais (24,17%): falta de interesse, desânimo, baixa tolerância a frustração, ansiedade de separação; questões de desenvolvimento (21,97%): linguagem, controle esfincteriano, medos, dificuldades de aprendizagem (13,18%) e TDAH (8,79%). É importante destacar que o bullying e o uso abusivo de componentes eletrônicos são problemas que devem ser abordados e adequadamente resolvidos, na vida escolar.

As sugestões aos professores são: não é papel do professor realizar diagnósticos de transtornos mentais, porém ao identificar um aluno possivelmente portador de alguma psicopatologia é fundamental conversar em particular com o aluno, com os familiares do aluno, orientar o encaminhamento para avaliação psiquiátrica e manter a comunicação com os profissionais da saúde durante o tratamento. O psiquiatra deve realizar a psicoeducação explicando o possível diagnóstico, a importância do uso de psicofarmacos, se forem necessários, na dose correta, o tempo de tratamento, para os pais, familiares, professores, todos profissionais, pessoas próximas esclarecendo as dúvidas, expectativas e formando um vínculo de confiança decisivo para o sucesso terapêutico.

Problemas de comportamento na infância representam déficits ou excessos comportamentais que prejudicam não só a interação da criança com seus pares e adultos, como também a aquisição de repertórios adequados de aprendizagem. Tais problemas, quando não identificados, costumam provocar prejuízos funcionais em diversas áreas da vida da criança e do adolescente. Alguns dos fatores de risco mais estudados, relacionados a problemas de saúde mental e de comportamento na infância, são as habilidades sociais deficitárias, as dificuldades no desempenho acadêmico e as práticas educativas parentais inadequadas. Quando os pais estabelecem um ambiente familiar adequado (clima emocional familiar positivo, suporte à autonomia, estruturação de regras e rotinas no lar) e propiciam momentos favoráveis ao desenvolvimento infantil, eles estão criando fatores de proteção frente a situações ameaçadoras às quais as crianças podem ser expostas.

A verdade salva vidas sendo um dever da sociedade, incluindo obviamente os profissionais da saúde, abolir a negação. Quando diagnosticamos e tratamos corretamente as enfermidades mentais na infância e adolescência, criamos a possibilidade de melhorar toda a trajetória de uma vida e da sociedade.

Dr. Ricardo Fasolo
CREMERS 32657
Psiquiatra da Infância e Adolescência

Fonte: Jornal NH – Caderno de Saúde – Segunda-feira, 20 de março de 2017.