Anti-inflamatórios e aparelho digestivo
Os anti-inflamatórios não hormonais são medicamentos amplamente utilizados pela população, pois apresentam além da ação anti-inflamatória propriamente dita a ação analgésica e de combate a febre. Em razão da freqüência que os anti-inflamatórios são utilizados, torna-se expressivo o percentual de efeitos colaterais no aparelho digestivo, daí o porquê do interesse cada vez maior pela relação com o aparelho digestivo. Dados sugerem que 5 a 10% da população adulta fazem uso regular de algum tipo de anti-inflamatório não hormonal. Entre os idosos, um grupo para qual o risco de complicações gastro intestinais é maior, a utilização a longo prazo pode chegar a 15 %%. Estudos epidemiológicos sugerem que 15 a 40% de pacientes que utilizam anti-inflamatórios, apresentam algum tipo de sintoma digestivo, sendo que 10% destes pacientes são obrigados a interromper o tratamento devido à gravidade dos sintomas. Além disso, de todos os usuários crônicos, aproximadamente 25% desenvolverão úlcera péptica e 2 a 4% apresentarão complicações como hemorragia e/ou perfuração. Embora o sangramento gastro intestinal seja o efeito adverso mais evidente relacionado aos anti-inflamatórios, há outras formas de acometimento do trato digestivo, desde apresentações benignas e comuns, até mesmo formas raras e de difícil manejo.
Os mecanismos de lesão atribuídos aos anti-inflamatórios são múltiplos. Sabe-se que por serem ácidos fracos eles permanecem desta forma, junto com o ph ácido do estômago. Um aspecto relevante no processo de lesão da mucosa gástrica é o papel do ácido gástrico, que tende a interferir na agregação das plaquetas e prejudicar a cicatrização de úlceras além de tornar as lesões induzidas por anti-inflamatórios mais profundas. O mecanismo é pouco conhecido até o momento. Embora a inibição das prostaglandinas da mucosa esteja presentes em todas as partes do aparelho digestivo, há diferenças significativas entre as porções mais altas e mais baixas do aparelho digestivo. Embora os anti-inflamatórios possam causar lesão ao longo de todo trato gastro intestinal, o local de lesão predominante é o estômago. Neste órgão eles tendem a produzir dois tipos de lesão da mucosa. O primeiro ocorre logo após a ingestão do agente com efeitos locais na mucosa com vermelhidão, erosões, hemorragias subepiteliais, sendo que este efeito praticamente desaparece com a interrupção do uso da medicação. O segundo tipo de lesão é conseqüência de seu efeito sobre a síntese das prostaglandinas tendo como maiores complicações as úlceras e o sangramento.
A doença ulcerosa péptica é principal causa de hemorragia digestiva alta (50% dos casos) com taxa de mortalidade podendo chegar aos 10% dos casos. Podem estas associadas à idade do paciente, a outras doenças associadas e ao uso de outros medicamentos que prejudicam a mucosa do estômago ou a uso de anticoagulantes.
Torna-se importante em pacientes com história de úlcera prévia que vão iniciar tratamento com anti-inflamatórios, ou mesmo com AAS devem ser examinados e definido a presença de Helicobacter pylori bactéria presente na maior parte destas lesões para que seja tratado previamente.
Este assunto se torna importante pelo uso indiscriminado de anti-inflamatórios principalmente em leões músculo esqueléticas, de evolução arrastadas, poucas chances de melhora e com isso, em função da dor são vendidos nas farmácias sem receita e com muita facilidade. Cabe o alerta de conversar com seu médico, quando a opção for de usar este tipo de medicação por período mais longo.
 
Dr. Raul Cassel
CRM 15315
 
Fonte: Jornal NH – Caderno de Saúde – Segunda-feira, 16 de maio de 2016.