Assistência ao parto normal – Conclua você mesmo
         Apresentarei 3 breves casos obstétricos ( iniciais trocadas ) do meu consultório de cerca de 15 anos atrás, quando ainda se fazia muitos partos normais. Todas são gestantes de baixo risco , peso adquirido na gestação normal, com parceiro participativo, que assistiram o cursinho de pré- natal no meu consultório, usuárias de plano de saúde. O objetivo desses relatos é demonstrar a complexidade na assistência ao parto normal no que tange ao vínculo com o  obstetra e sua remuneração.
         Caso 1: M.D, 33anos. Mãe faleceu no parto, estava assustada. Me ligou numa 4 feira às 3 hs da manhã com dores fracas. Combinamos de ir ao consultório cedo da manhã, minha agenda de consultas estava lotada. A paciente ficou à minha roda todo o dia, ia e vinha da calçada da rua para o consultório, para exames das contrações, batimentos fetais e dilatação conforme o preconizado. Era avaliada entre as consultas marcadas, sem haver dissabores nem pelas pacientes marcadas, nem para paciente em trabalho de parto na sala de espera. Saímos juntas do consultório às 18 hs, parto normal ocorreu às 21 hs , minha saída do hospital foi às 2230 hs.
         Caso 2:  A. C., 26 anos, contrações fracas começaram numa manhã de sábado, precisei atender o parto na tarde, perdi a festa de aniversário do meu filho. Parto normal ocorreu às 19 hs, saída do hospital 21 30 hs de um sábado, honorários sem aumento mesmo sendo sábado.
         Caso 3: R.N., 32 anos, perda de líquido sem dores às 17 hs de 3 feira, ela trabalhando e eu em curso em Porto Alegre, estava calma e praticamente sem dor, ficamos ao telefone várias vezes.  As dores foram aumentando, chegamos ao hospital às 22 hs em NH; felizmente não houve congestionamento na Br 116. Parto normal ocorreu às 2 hs da manhã, minha saída do hospital ocorreu às 4 hs da manhã, pois houve mais sangramento do que o previsto. Às  8 hs da manhã eu já tinha consultas marcadas no consultório,  foram 4 hs de descanso.
         Até hoje muitos planos de saúde considerados “A” não usam a tabela da Associação Médica Brasileira e só nos domingos e feriados e das 22 hs às 6 hs da manhã é pago acréscimo de 30 % nas urgências. O pagamento por hora da assistência ao parto nessas horas que antecedem o parto está no Rol da Agência Nacional de Saúde, mas é desconsiderado muito frequentemente. Um trabalho de parto pode durar de 16 a 20 hs numa paciente em primeira gestação a termo e os planos de saúde só têm contemplado nos seus planos o atendimento obstétrico o qual  não precisa ser com a ( o ) médico que atendeu no pré- natal. No exterior também é assim, é bom que se saiba, quando se compara os partos normais no Brasil e exterior.
     Nós obstetras mais antigos, fazíamos o sobreaviso obstétrico sem cobrar por isso, achávamos que era nossa missão. Mas isso é inviável atualmente, as tabelas de pagamento são muito baixas, há congestionamentos, insegurança nas ruas,  as pacientes não se preparam muitas vezes adequadamente para horas de dores, há pressa, imediatismo. Como podem ver nos casos citados acima as pacientes ficaram muitas horas em trabalho de parto e a anestesia foi local , sem anestesista. Eu era o sobreaviso, a obstetra, a “doula que falam “, o apoio para a família.
         É preciso rever MUITA COISA, A SITUAÇÃO É MAIS COMPLEXA DO QUE PARECE. É preciso saber que uma coisa é parto normal que é sugerido pela Associação Médica , mas isso não significa atualmente, que será com o médico que fez o pré- natal com a tabela do plano de saúde, pois isso é geralmente inviável nos dias de hoje.
Dra. Carmem Helena Snel, CRM 13284
Esp.Ginecologia/Obstetrícia e Acupuntura