Câncer de Garganta e o sexo

   Por muito tempo os grandes vilões dos cânceres de boca e garganta foram o tabaco e as bebidas alcoólicas, porém, nas últimas três décadas, outro vilão apareceu com muita força: o vírus HPV (Papiloma Vírus Humano).    Os cânceres nessas localizações também tendiam a aparecer em pacientes mais velhos, com o HPV eles vêm aparecendo em pacientes cada vez mais novos. Esse mês saiu um estudo com mais de 97 mil pacientes que comprovou o que outros estudos já evidenciaram, a forte associação entre o HPV e o câncer de garganta. O HPV aumente em 30 vezes o risco de câncer de garganta, sendo os homens mais suscetíveis que as mulheres.
O HPV possui mais de 100 tipos, alguns mais agressivos (como o tipo 16 que pode desencadear câncer) e outros inócuos. Se estima que quase a totalidade da população entrará em contato com algum tipo do HPV durante toda a vida, mas poucas terão lesões.  Ele é mais conhecido por ser muito importante no desenvolvimento do câncer de colo de útero, inclusive sendo responsável pela recente campanha de vacinação contra o HPV em meninas.
O meio de transmissão mais importante dos tipos mais agressivos é a via sexual. É de conhecimento geral da população que o preservativo deve ser usado no ato sexual, mas muitas pessoas acabam esquecendo da sua importância no sexo oral. Essa é a razão do aumento do câncer de boca/garganta relacionados ao HPV, aparecendo em pessoas cada vez mais jovens. A maioria das pessoas tem o vírus e não sabem, mas em algumas, o sistema imunológico pode não ter a competência necessária e o vírus começa a agredir o tecido normal, causando um câncer. Esse é a grande dificuldade no diagnóstico, normalmente esses tipos mais agressivos não desencadeiam lesões antes de aparecer o câncer, portanto não temos como saber até o aparecimento da lesão maligna. O câncer de boca/garganta causado pelo HPV tende a ter uma agressividade menor que os causados pelo tabaco e etilismo.
Como em todas as patologias, o melhor tratamento é a prevenção. Além do uso de preservativo no ato sexual, inclusive no sexo oral, é de extrema importância. A vacina consegue proteger contra os vírus mais agressivos, justamente aqueles com capacidade de causar lesões malignas. Essa proteção serve tanto para câncer de colo de útero, como de pênis, ânus e boca/garganta. No Brasil a vacinação só é recomendada para mulheres, especialmente meninas (antes do contato com o vírus, quando a vacina funciona melhor), assim como na maioria dos países. A Austrália já recomenda a vacinação para ambos os sexos e alguns países europeus estão estudando seguir na mesma linha.
Os sintomas da lesão já instalada são variáveis, dependendo da região afetada. Na cavidade oral é mais fácil de ser visualizada, sendo a garganta necessária uma avaliação endoscópica por um otorrinolaringologista. Dor, dificuldade para engolir, mau cheiro, sensação de abaulamento são alguns sintomas que podem aparecer. Uma vez instalada a lesão o tratamento é cirúrgico, portanto quanto mais cedo o diagnóstico, menor é a cirurgia e menores são as sequelas.

Dr. Eduardo Homrich Granzotto
CREMERS 27691