Influenza

Primeiramente, cumpre destacar a diferença entre resfriado (infecção viral que acomete principalmente as vias aéreas superiores, sendo causada por um grande número de agentes) e gripe (quadro febril que pode se apresentar de modo mais severo, inclusive ocasionando óbito, causado pelo vírus Influenza).
A pandemia causada pelo vírus Influenza em 2009 tornou-o conhecido em praticamente todo o planeta. Sua disseminação relativamente simples e eficaz (secreções orais e nasais contaminadas que são disseminadas no ambiente ou por transmissão direta entre pessoas) torna seu controle extremamente simples: a lavagem de mãos ou o uso do álcool gel, bem como o cuidado de não levar as mãos potencialmente contaminadas às áreas de risco (particularmente olhos, nariz e boca). Parece simples. Contudo, quando analisamos o comportamento dos indivíduos no dia a dia, percebemos a enormidade do problema: o álcool gel não está disponível a cada esquina e nem todos o carregam em seus bolsos; além disso, o contato com as áreas de risco é involuntário em inúmeras ocasiões. Neste contexto de medidas preventivas (teoricamente) efetivas, porém (rotineiramente) ineficazes, a vacinação oferece uma alternativa viável para redução de risco.
Ressalta-se a palavra “redução”: a vacina objetiva diminuir a probabilidade de complicações decorrentes da infecção. Sabemos que determinados grupos apresentam uma chance maior de evoluírem com quadros mais severos – nesses, os benefícios obtidos pelo uso da vacina são maiores. Tal assertiva não significa que àqueles que não se enquadrem em tais grupos não possam receber a vacina; o benefício atribuível é menor, porém existente. Também destaca-se que ela não elimina a chance de se contrair o agente – diferenças genéticas entre a vacina e o vírus podem torná-la apenas parcialmente eficaz.
Quanto a questão da segurança, a quantidade de aplicações já realizadas (inclusive em gestantes e indivíduos com problemas de imunidade) atesta esta característica.
Não são raros relatos de vacinados que afirmam a ocorrência de quadro gripal após a vacina. A vacina distribuída pela rede pública e em clínicas privadas é uma vacina inativada – tal termo implica que o agente para o qual ela é produzida (o vírus Influenza) não apresenta capacidade de causar a doença, por ter sido “desligado” (conferindo segurança na aplicação em indivíduos com deficiências de imunidade – os quais devem receber a vacina!). Mesmo com tal inativação, o nosso sistema imunológico reconhece-o como um agente estranho, produzindo uma memória imunológica que, no caso de exposição ao vírus “ativo” no ambiente, reconhecerá o agente como um agressor e desencadeará uma resposta mais robusta de defesa a tal exposição. A ocorrência de reações vacinais (notadamente no local de aplicação) não indica ativação do vírus, mas sim a resposta do organismo às partículas virais (inativas).
A vacinação de populações é uma medida em termos de saúde pública comparável à melhoria das condições sanitárias – a história já comprovou tal assertiva. Não se vacinar, ou não recomendar tal ato àqueles por quem se tem apreço, é uma perda de oportunidade de proteção segura e relativamente barata.
Fernando Bergel Lipp
Infectologista

Fonte: Jornal NH – Caderno de Saúde – Segunda-feira, 22 de maio de 2017.