Partograma – o que tem haver com o Parto Normal?

Uma das facetas mais interessantes para o profissional formado há muitos anos é ver o reavivamento de instrumentos de trabalho que fizeram parte do seu período acadêmico e profissional precoce, já considerados “ultrapassados “ pelos colegas mais jovens.
Mas o que é o PARTOGRAMA?  É o gráfico da evolução do parto normal. Fazia parte da rotina da nossa Residência Médica em Obstetrícia nos saudosos tempos da Maternidade da Santa Casa de Porto Alegre, então uma das mais conceituadas do sul do Brasil, ligada à então chamada Faculdade Católica de Medicina. Esse gráfico do trabalho de parto, tem duas linhas inclinadas paralelas para registro da dilatação do colo do útero, da descida do polo fetal (geralmente a cabeça do feto) no canal vaginal, da qualidade das contrações e para registro dos batimentos do coração fetal (se ouve com aparelhos específicos).
Nossos professores exigiam esse gráfico nos atendimentos a partos e não havia na época as denominações “parto humanizado”, “parto adequado “, “parto seguro “. Mas interagíamos da melhor forma possível com as pacientes, ajudávamos a terem momentos de relaxamentos; orientávamos nas respirações adequadas e controlávamos os batimentos fetais de 15 / 15 min.  No momento que a evolução do parto normal não estava adequada, identificado no partograma, aí sim se tomava medidas mais medicamentosas ou até cesariana. Afinal somos médicos, para isso estudávamos e estudamos. O partograma dá um embasamento científico às condutas no atendimento obstétrico, tornando o trabalho de parto mais seguro, mas não me parece menos humanizado. O mais humano é dar segurança às pacientes.
Nesse ano de 2015 a Agência Nacional de Saúde (ANS) determinou uma normativa (RN N 368/2015), tornando obrigatório a partir de julho do corrente ano, o preenchimento do partograma em todos os atendimentos de trabalho de parto. Ou seja, fica considerado menos adequado uma cesariana, por exemplo, sem indicação por partograma em paciente de baixo risco.
As dificuldades são inúmeras no enfrentamento da mudança de paradigmas da cultura de cesarianas para o retorno aos antigos partos normais com partogramas da nossa formação médica no passado. Há falta médicos para trabalhar pelo que desejam pagar (desconheço qual o profissional que não o obstetra, que precisa dar disponibilidade 24 hs, por 10 meses: 9 meses da gestação e 1 mês de puerpério, sendo que só é pago pelos planos de saúde o evento “parto….” e não pela contínua disponibilidade ); há   falta de espaço físico nos hospitais, pois partos normais levam 16 a 20 horas . Faltam pacientes que sejam de fato preparadas para um evento que não pode ter horário marcado (muitas gostam de ir antes no salão para estarem bonitas nas fotos do nascimento do filho), muitos casais   querem calcular o dia do nascimento, querem que seja rápido e pouco dolorido. Ora parto é parto!!! Não se sabe como ou quando será; se sabe que sendo de baixo risco e tendo um bom   pré-natal, tendo adequado ganho de peso e um bom relaxamento, tolerando as longas horas e o desconforto das dores do parto, mais chances a paciente terá de ter um BOM PARTO NORMAL. O PARTOGRAMA, é só um instrumento!  Os fatores para um adequado, seguro parto normal são muito numerosos, complexos e de difícil resolução no nosso país a curto e/ou médio prazo.

Dra. Carmem Helena Snel – CRM  13284
Especialista em Ginecologia e Obstetrícia pela FEBRASGO
Especialista em Acupuntura Médica pelo CMBA
Curso de Geriatria na ULBRA