Saindo da novela – Lúpus

Até poucos dias atrás, quando uma paciente recebia o diagnóstico de lúpus, muitas vezes a primeira expressão que via era de dúvida – “lúpus?! Mas o que é isso?” A novela não resolveu a dúvida, mas certamente ajudou a trazer um pouco mais de conhecimento para a população, em forma de curiosidade e de discussão sobre o tema.

Lúpus é uma doença auto-imune, muito mais comum em mulheres do que homens, e que geralmente se manifesta durante o chamado “período fértil” das mulheres – tempo que inicia com a primeira menstruação (menarca) e termina com a última (menopausa). Talvez você se pergunte: o que é “auto-imune”?

Temos como parte de nosso corpo um inteligente sistema de defesa que chamamos, genericamente, de “imunidade”, como se fosse uma coisa única, mas que tem vários participantes, cada um com sua função. Uma das principais funções desse sistema é identificar os germes e elementos externos e impedir que prejudiquem o funcionamento do nosso corpo. Para tanto, ele também precisa saber o que faz parte do nosso corpo, e é aí que as coisas acontecem no lúpus. Quando o sistema imune “confunde” um elemento externo com o próprio corpo, ele começa a atacar o que deveria defender e aparecem os sintomas.

Os estímulos para isso acontecer são variados – o próprio sol, por exemplo, contribui com risco, assim como infecções, tabagismo e o hormônio feminino estrogênio. Como muitas doenças da área da reumatologia, uma vez desencadeada ela pode ser controlada, mas não existe tratamento para curá-la. Muitos pacientes, no entanto, podem ficar anos sem manifestações da doença com o tratamento certo, inclusive podendo suspendê-lo, com a devida orientação médica. Devemos atentar para o fato do lúpus apresentar um comportamento errático, alternando períodos de surto com outros de silêncio, sem previsão clara de quando isso pode acontecer.

O que mais angustia os pacientes – e muitos médicos também! – é o fato do lúpus não ser uma doença de poucos sintomas. Pelo contrário! Por poder afetar qualquer órgão ou sistema, a doença pode causar os mais variados sinais e sintomas, e dois pacientes podem ter doenças de manifestação completamente diferente. O paciente, porém, tem a tendência de manifestar a doença de forma semelhante nos surtos, e saber identificar eles precocemente é importante para o sucesso do tratamento.

As manifestações clínicas mais comuns envolvem a pele, em forma de lesões que tendem a se manifestar em áreas expostas ao sol, as articulações (artrite), os tecidos que recobrem os pulmões (também conhecidos como pleuras), entre outras. Uma manifestação relativamente comum da doença ocorre nos rins, com inflamação com formas clínicas diferentes que pode determinar a perda permanente da função deles, inclusive com necessidade de diálise e transplante renal. A manifestação do fígado pode ocorrer, mas é raro um acometimento tão grave e tão rápido a ponto de indicar o transplante. Vale lembrar que na maioria das vezes o lúpus é uma doença leve, e que o cuidado precoce aumenta a chance de evitar as manifestações mais graves.

Existem vários tratamentos para a doença, mas a base deles consiste no protetor solar, o uso de analgésicos, anti-inflamatórios e corticóides, frequentemente acompanhados de medicações que ajustam ou diminuem a imunidade, de forma a impedir que ela continue a agredir o próprio corpo. O cuidado do paciente idealmente sempre deve ser feito com um reumatologista, podendo ser auxiliado por médicos de outras especialidades, conforme as manifestações do paciente.

Dr. Pedro Guilherme Schneider
CRM – 28572
Reumatologista