Sobre os resultados de exames
A prática moderna da medicina conta com o uso dos mais diferentes métodos diagnósticos, tais como laboratório para análise de amostras de sangue e outros fluidos, exames de imagem cada vez mais complexos, ou procedimentos invasivos como endoscopia e colonoscopia. A facilidade de acesso, que se tornou regra com o passar dos últimos 20 a 30 anos, transformou a avaliação da saúde.
Isso é muito bom – em mãos habilidosas, diagnósticos trabalhosos e difíceis tomam muito menos tempo para serem feitos, e o próprio entendimento das doenças evoluiu com a sofisticação da análise de sua natureza e evolução.
Mas existe uma ressalva, tal como coloquei logo antes: em mãos habilidosas. A banalização do ensino e a baixa exigência na formação de nossos médicos formou uma verdadeira geração de “leitores profissionais de resultados”, que sabem bem distinguir o jargão usado em laudos, mas que pouco sabe usar esses resultados para formar um diagnóstico e fazer um plano terapêutico muitas vezes, nem sabem por quê solicitaram o exame.
Na prática reumatológica, atendo semanalmente pacientes que vêm preocupados com exames de “reumatismo no sangue” alterados, mal explicados por quem os solicitou, o que só aumenta a angústia. Na grande maioria das vezes, o exame nem deveria ter sido pedido, e o resultado não tem nenhuma importância para o tratamento do paciente. Onde está a falha?
Existe um motivo para qualquer exame em medicina ser chamado de “exame complementar”: todo exame serve para auxiliar, complementar uma hipótese que o médico tenha feito antes de pedi-lo. Não adianta nada solicitar um exame às cegas – todo exame deve ter um motivo para ser pedido, uma suspeita para confirmar ou afastar, o que se consegue apenas com uma história e exame físico bem feitos.
Por fim, exames também erram – amostras podem ser trocadas, descrições em laudos de exames de imagem podem ter “deixado passar” alterações importantes, e mesmo fatores do próprio paciente podem alterar exames, sem que necessariamente haja o distúrbio apontado. Um exemplo comum que observamos é o exame de glicose, que, quando muito alterado, pode alterar outros exames, como o sódio. A lista de interferências é longa.
Assim, antes de consultar o “dr. Google”, converse com o médico que está lhe avaliando. É importante que o paciente se interesse pelo que sinta e o que tem, mas não há pesquisa na internet que bata a integração de dados que um bom clínico ou especialista pode fazer.
Pedro Guilherme Schneider
Medicina Interna / Reumatologia
CREMERS 28572